O Núcleo de Estudos do Fogo em Áreas Úmidas (NEFAU) participou do 60° Encontro Anual da Associação de Biologia Tropical e Conservação (ATBC), entre os dias 14 e 18 de julho em Kigali, Ruanda. O evento reúne anualmente pesquisadores, estudantes, profissionais e educadores de mais de 60 países para compartilharem os mais recentes estudos, oportunidades e desafios da conservação e restauração da biodiversidade tropical. O tema de 2024 foi “Alcançando a ciência inclusiva para conservação, adaptação e resiliência eficazes nos trópicos”.
O NEFAU foi representado por sete integrantes da equipe que apresentaram resumos no congresso e ministraram o workshop “Opposite ecological forces: Exploring the interplay of floods and fires in tropical wetlands”. O objetivo foi colocar em discussão conjunta as duas forças, inundação e fogo, sobre a biota e suas relações ecológicas, normalmente estudadas de forma individual em trabalhos científicos. “Quando os dois temas são tratados juntos, é possível enxergar padrões que não eram visíveis e alcançamos resultados que não conseguiríamos enxergar em trabalhos isolados”, afirma Geraldo Damasceno, professor e coordenador do Núcleo.
Entre a lista de participantes do workshop estão pessoas de países como África do Sul, Inglaterra, Marrocos, Alemanha, Indonésia, Tanzânia e Ruanda. Um deles foi Jean Damascene, ruandês e estudante de engenharia agrícola na Universidade de Ruanda. “Aprendi que áreas úmidas tropicais podem ter eventos de fogo em áreas de turfeira, algo que muitas pessoas ainda não estão cientes, existe mesmo muito conhecimento a ser descoberto. Aqui em Ruanda, por exemplo, ainda não estamos olhando para essas questões. Como faço parte de um grupo de estudantes, estou muito interessado no tema para no futuro tentarmos evitar fogos catastróficos”.
Um dos resultados das pesquisas apresentadas no workshop será publicado em novo artigo científico. O objetivo da publicação é considerar a interação entre as duas forças, fogo e inundação, como primordial para a elaboração de projetos, publicações e demais trabalhos dentro da ciência.
Foi após os grandes incêndios no Pantanal em 2020 que o NEFAU surgiu e compõe a lista de sítios do Programa de Pesquisas Ecológicas de Longa Duração (PELD), rede nacional de pesquisas científicas no tema Ecologia de Ecossistemas. O objetivo do Núcleo, que faz parte da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), é pesquisar como o fogo e a inundação afetam o bioma a longo prazo, com maior foco nas interações entre as plantas e os animais e também nos aspectos sociais e econômicos. O projeto é financiado pelo CNPq, Imasul, Rede Pantanal e cofinanciado pelo Fundect.
Como convidados internacionais que também pesquisam sobre fogo e inundação, os cientistas Bambang Saharjo e Paulina Meller participaram como palestrantes em vídeo durante o workshop. Bambang apresentou sobre aspectos do fogo em áreas de turfeira na Indonésia e os impactos na liberação de carbono para a atmosfera. Já Paulina mostrou como a vegetação e a fauna do Parque Nacional da Cameia, na Angola, reagem aos eventos de fogo e inundação.
Também durante o workshop, o professor Danilo Ribeiro apresentou a pesquisa que avalia as respostas dos animais a eventos de fogo no Pantanal, intitulada “Effect of fire on fauna in wetlands”. Os resultados mostram que os efeitos variam consideravelmente entre as espécies. “Existem animais que são prejudicados, espécies que não são afetadas e até mesmo animais que são beneficiados pelo aumento de eventos de fogo”, afirma.
Já nos diálogos feitos durante a dinâmica proposta, os professores Fabio Roque e Ieda Bortolotto foram responsáveis por apontar elementos de discussão sobre a dimensão humana em áreas úmidas como o Pantanal, principalmente no contexto de comunidades tradicionais e indígenas. Frente às mudanças climáticas, essas comunidades estão cada vez mais vulneráveis. Eles também participaram de rodas de conversa sobre desafios de construção de currículos mais inclusivos e descolonizadores nas universidades do continente africano e no Brasil.
Entre os trabalhos apresentados no congresso, está o da pós-doutoranda Rosa Helena da Silva, intitulado “Effect of fire and flood on wetland plant community structure and composition”. O estudo mostrou que a vegetação de uma planície inundável, após um ano de queima catastrófica, não mostrou diferenças significativas na riqueza e abundância de espécies, apenas mudanças na composição das áreas avaliadas.
Por fim, a combinação do fogo, da inundação e da herbivoria como influência para a riqueza de espécies herbáceas foi apresentada pelo trabalho do doutorando Alexandre Pereira. “As áreas que menos inundam, submetidas ao fogo tardio e que tiveram presença de herbívoros são as que apresentam maior riqueza de espécies”.
O fogo tardio é feito após o período crítico de incêndios e é um dos três tipos de queima aplicadas em estudos do NEFAU. Além da tardia, a queima precoce é feita no período menos crítico, antes da temporada de incêndios, já a modal é aplicada durante os acontecimentos de desastres de fogo. A pesquisa de Alexandre é intitulada “Effects of fire and flood on the taxonomic beta diversity of herbaceous plants in the Brazilian Pantanal”.
A participação de equipes da UFMS em eventos dessa magnitude é fundamental para o processo de internacionalização da universidade e troca de experiências. Essa é uma das maneiras de ampliar, por exemplo, a busca de soluções para problemas complexos como os incêndios no Pantanal. O evento também aumentou o contato dos pesquisadores e pesquisadoras com cientistas de mais de 10 países diferentes, fortalecendo relações com países do Sul Global.