Pesquisadores da UFMS descobrem duas novas espécies de liquens no Pantanal

Pesquisa é a primeira a construir um inventário de liquens focado na relação com o fogo em capões do bioma pantaneiro

Por Alicce Rodrigues | 30/10/2023 10:10

Crypthonia quinqueseptata e Lithothelium aggregatum, as duas novas espécies descobertas vistas por microscópio. (Fotos: Adriano Spielmann)

O pesquisador Matheus Aido, mestre em Biologia Vegetal pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), descobriu duas novas espécies de liquens no Pantanal Sul-Mato-Grossense durante sua pesquisa de mestrado, feita com orientação do professor Adriano Spielmann e coorientação dos professores André Aptroot e Natália Koch. 

A primeira descoberta está batizada como Crypthonia quinqueseptata, sendo o nome atribuído pela característica dos ascósporos, que apresentam cinco septos, mas possuindo um talo diferente das demais espécies do gênero. A segunda é chamada de Lithothelium aggregatum, nomeada assim por ter peritécios agregados com a característica única de possuir esporos menores em comparação com as espécies semelhantes. 

A pesquisa de Matheus integra o Programa de Pesquisas Ecológicas de Longa Duração (PELD), uma rede nacional de pesquisas científicas sobre o tema Ecologia de Ecossistemas, promovido pelo Governo Federal e dividido em sítios de pesquisa em diversos biomas do Brasil. No Pantanal Sul-Mato-Grossense, quem executa o PELD é o Núcleo de Estudos do Fogo em Áreas Úmidas (Nefau), grupo de pesquisadores da UFMS. 

O estudo buscou mapear espécies de liquens em capões do Pantanal e como elas se comportam em relação às queimadas. Compreender os efeitos do fogo e da inundação no bioma pantaneiro é o principal objetivo de todos os estudos feitos pelo grupo Nefau na UFMS. 

O bioma Pantanal ainda não tinha um estudo extenso sobre quais são as suas comunidades liquênicas, focando na relação com o fogo. Nesse sentido, o trabalho de Matheus é pioneiro ao construir um inventário de liquens em capões, como conta Adriano. “Todas as referências até agora tratavam da borda do Pantanal, na região de Corumbá. Não conseguimos estudar os efeitos da inundação pelo tempo limitado do mestrado e porque durante o período da pesquisa o Pantanal não inundou, como acontece frequentemente”.

Borda do capão chamado de P20 na pesquisa, queimado em 2010. (Foto: Matheus Aido)
Interior do capão P20. (Foto: Matheus Aido)

Durante dois anos, Matheus fez o levantamento e a estruturação de comunidades de liquens presentes em 25 capões da região do Miranda-Abobral. Capões são pedaços de florestas arredondados em meio aos campos do Pantanal, frequentemente mapeados e usados como locais de estudo e experimentos por pesquisadores. O primeiro capão, onde foi descoberta a Crypthonia quinqueseptata, foi queimado há 13 anos. O segundo capão, da nova espécie Lithothelium aggregatum, sofreu queima há 16 anos. 

Para descobrir uma nova espécie, é preciso a ajuda de especialistas com experiência, como é o caso do liquenólogo André Aptroot, que trabalhou quatro anos como professor visitante na UFMS e auxiliou na descoberta dos novos liquens. Além disso, é preciso comparar com todas as espécies já existentes dentro do grupo estudado. Quando nada se encaixa, é um indicativo de que seja uma espécie nova. Segundo Matheus, as duas descobertas foram encontradas logo no começo da pesquisa de campo, nos primeiros capões estudados. 

“Investigar uma área com forte ocorrência de queimadas ocasionais e periódicas, e mesmo nesse tipo de ambiente descobrirmos novas espécies desconhecidas pela ciência é muito intrigante. Nos faz pensar o que aconteceria se encontrássemos algum capão que esteja há mais décadas sem queimar”, destaca Adriano.

Conforme Matheus, autor da pesquisa, a liquenologia ainda é pouco estudada no Brasil, mesmo sendo importante para a natureza e em funções humanas. “Esse é um pontapé para entendermos melhor sobre as comunidades de liquens nos capões do Pantanal e quais são aquelas que surgem primeiro após o fogo, como se organizam, se estruturam e como são afetadas pelo ambiente. Sabemos também que algumas substâncias produzidas pelos liquens apresentam propriedades inibidoras do câncer”.

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O liquenólogo André Aptroot e Matheus Aido em campo, no Pantanal Miranda-Abobral. (Foto: Adriano Spielmann)

O que são liquens? 

Liquens são organismos formados pela relação que ocorre entre fotobiontes (algas ou cianobactérias) e micobiontes (fungos). São encontrados em diferentes superfícies existentes na natureza, como rochas, troncos, folhas, solos, ramificações de árvores, caules e plantas. Desempenham o papel fundamental de pioneiros na colonização de locais sem seres vivos, deixando o ambiente habitável e preparando o terreno para plantas e animais formarem comunidades e se expandirem. 

Liquens possuem diversas características: 

Usados no biomonitoramento da qualidade do ar; 

Servem de indicadores da degradação ambiental; 

São capazes de sobreviver em ambientes extremos; 

Usados no monitoramento do aquecimento global; 

Possuem atividades antibióticas, antivirais, antimicóticas e antitumorais. 

Desmatamento e incêndios florestais são ameaças 

Capões que foram queimados menos vezes ou há muito tempo atrás, apresentaram comunidades liquênicas mais estabelecidas na pesquisa. “Nos capões que foram queimados recentemente, entre 2018 e 2019, não encontramos nenhuma presença de liquens. Percebemos que quanto maior o tempo de queimada, maior a riqueza de espécies, como nos locais que encontramos queimados de 10 a 20 anos atrás”, explica Adriano. 

Segundo Matheus, o fogo é um evento de seleção local. Dependendo da frequência e da intensidade, pode acabar com toda uma comunidade liquênica. Nos resultados obtidos na pesquisa, capões afetados pelo fogo tiveram perda da riqueza de espécies. “Liquens demoram bem mais que os vegetais para crescerem, não basta uma chuva, crescem a níveis de milímetros por ano, o que é bastante lento quando comparado com plantas”. 

Sobre a resistência ao fogo das novas espécies catalogadas, Adriano diz que é impossível comparar com os registros antigos porque elas foram descobertas recentemente. Para os pesquisadores, o importante agora é monitorar os capões onde as novas espécies foram descobertas e fazer um acompanhamento contínuo para observar se irão resistir a futuras queimadas nesses ambientes. 

Saiba Mais 

Confira a dissertação de Matheus na plataforma de teses e dissertações defendidas na UFMS (https://repositorio.ufms.br/handle/123456789/665